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Literatura & Cultura

O Horaciano da Krajina – I | Krajiški Horacijevac — I

por admin

I

Talvez alguém estranhe, ao ler e ponderar o título da nossa narrativa. Como diabo vem Horácio parar à Krajina? Quem, além de um sacerdote católico, se encontraria a ser admirador e amante do glorioso poeta romano?

Mas escutai — ou melhor: lede — onde e como se encontrou esse Horaciano, e se tínhamos razões para assim o chamar. De toda maneira, rogamos ao viril e ao belo sexo do nosso público leitor que dê crédito à nossa honesta palavra: que esse Horaciano de facto viveu, tal como o próprio Horácio realmente existiu, e que também esta narrativa a contamos verídica, segundo o relato de um velho companheiro e caro amigo nosso.

Esse nosso veneradíssimo amigo ainda hoje vive — e queira Deus que viva por muito, muito tempo, e que, como até agora, continue a velar pelo progresso da nossa querida pátria! Por isso os meus eruditos leitores hão de relevar de bom grado que eu não diga o nome e o apelido do amigo, ainda que por vezes me veja em grande aperto, pois também esse amigo comparece em muitos dos feitos do herói de quem havemos de narrar, e neles se mostra como personagem.

Mirko, barão Blagojević, era de antiga estirpe — um Blagajac do regimento de Slunj. Ao avô não aprouve permanecer sob a espada, e mudou-se — pouco antes de o regimento de Slunj ser dividido em distritos e entregue à administração militar — para a Eslavónia; e mandou educar o filho, o qual veio a tornar-se grande senhor junto ao tribunal áulico em Viena. Foi assim que Mirko nasceu em plena Viena; mas o seu pai era, ainda assim, croata bastante bom para não deixar Mirko estudar Direito em outro lugar que não a própria Zagreb. Talvez o pai de Mirko pensasse também que, sem bom latim, não há grandeza para um croata, e que os professores de ambos os Direitos em Zagreb sabiam melhor latim do que toda a alma mater vienense.

Entretanto, Napoleão I sublevou toda a Europa e foi causa de que os mais talentosos jovens se alistassem nas fileiras. Nessa roda achou-se também Mirko Blagojević, e nós avistamo-lo pela primeira vez no ano de 1813, na batalha de Hanau,[1] onde os austríacos e os bávaros venceram os franceses, e onde Blagojević, ferido bem na maçã da garganta, jazia no campo de batalha, banhado em sangue, sem consciência de si. Certo médico francês, que ficara no campo junto aos feridos franceses e que, vendo não poder fugir ao cativeiro, examinava um e outro ferido austríaco, encontrou assim também o jovem capitão Blagojević, afogando-se no próprio sangue. O médico francês, percebendo que Blagojević estava vivo, atou-lhe a ferida e mandou removê-lo para o hospital. Não tivesse acontecido estar ali aquele médico a respigar pelo campo, decerto os soldados teriam descido Blagojević, com outros inúmeros mortos, à vala comum dos heróis, e talvez, ainda não arrefecido, o teriam coberto com a negra terra.

Em vez da vala comum, Blagojević recobrou os sentidos no hospital, e dia após dia foi melhorando; assim lhe cicatrizou a maçã da garganta, e sobre o peito heroico resplandeceu-lhe uma estrela — a cruzinha da mais alta ordem militar de Maria Teresa —, pela qual lhe coube também o baronato. No ano de 1815 foi designado, como capitão do estado-maior general, a fixar na Galícia as fronteiras entre a Áustria e a Rússia; e foi-lhe ordenado levar em pessoa um exemplar do traçado e do mapa-limite a Petrogrado, onde de novo o condecoraram com certa ordem russa.

No ano de 1829, Blagojević tornou-se comandante do regimento de Slunj, e ali encontrou o nosso amigo — digamos — como jovem a quem nem o livro latino nem o alemão eram estranhos. Vindo da universidade, julgava o nosso amigo estar montado [seguro de si], tanto mais que estudara a fundo, a seu modo, as matérias prescritas para a administração e reunira pelas bibliotecas muitos apontamentos jurídicos e históricos. De Blagojević então só se sabia que era bom soldado, mas que na Krajina não servira um único dia, donde de facto se julgava que da administração de fronteira não entendia patavina, quanto menos que o livro lhe fosse caro, ou que pudesse ser um carácter [homem notável] do feitio de Milcíades ou Temístocles.

Mas tão logo Blagojević assumiu o comando, logo se sentiu por todas as doze companhias que as tropas haviam caído nas mãos de um homem de tomo e de um perito.

Haverá ocasião de falar disso mais largamente.

Voltemo-nos um pouco para a vida doméstica do nosso eminente personagem. Tendo estado na Galícia com soldo elevado e vivendo sempre pelas casas senhoriais da hospitaleira nobreza polaca, Blagojević, homem solteiro, pôde poupar um belo cabedal, e podia, com o soldo de coronel e naquela época de barateza, viver verdadeiramente como um barão.

E de facto tinha ao seu serviço criado de quarto particular, um pajem (inoš), cozinheiro e cocheiro. Além disso, havia sempre na sua casa um suboficial do regimento de Slunj, encarregado de acompanhá-lo por toda parte.

O mobiliário era riquíssimo, à maneira dos grandes, disposto com lavor artístico e ornato, e arranjado com esmero. No seu gabinete havia armários cheios de livros; pelas paredes, mapas, armas e bustos de grandes generais.

Distinguia-se por particular conforto o quarto de dormir, no qual a ninguém era permitido entrar senão ao único criado de quarto. Parecia, na verdade, que o mobiliário do quarto não era de todo novo, mas era, dir-se-ia, mais precioso e guardado com certo cuidado zeloso, e jamais movido do lugar. Todo o chão estava coberto de tapete; o leito, encimado por um dossel de pesada seda verde; espelho, lavatório, gavetas e prateleiras, como nos aposentos de uma grande dama; e na parede, junto ao leito, uma belíssima imagem feminina em moldura dourada, e sobre a moldura uma coroa de príncipe.

Ao pé daquela imagem, sobre uma coluna de mármore, estava um busto de Horácio, e na coluna achavam-se gravadas, em letras douradas, estas cinco linhas:

Exegi monumentum aere perennius

Erigi um monumento mais perene que o bronze,

Regalique situ pyramidum altius,

mais alto que a régia mole das pirâmides,

Quod non imber edax, non Aquilo impotens

que não poderão destruir a chuva corrosiva nem o Aquilão desenfreado

Possit diruere, aut innumerabilis

poderão destruir, nem a inumerável

Annorum series et fuga temporum.

procissão dos anos, nem a fuga dos tempos.

( Monumentum, Carmina III, 30, vv. 1–5, Horacius)

II

E quem foi esse Horácio, que pôde afirmar de si, com tanta certeza, que erigira um monumento mais duradouro que o bronze?

Permitir-me-ão aqueles senhores leitores a quem Horácio não é estranho que diga em breves palavras aos demais leitores e às nossas belas leitoras quem foi Horácio, para que pudesse tornar-se tão querido ao nosso Blagojević.

Quinto Horácio Flaco nasceu no dia 8 de dezembro do ano 65 antes de Cristo, cinco anos depois de Virgílio, na cidade apuliana de Venúsia. O seu pai era liberto, possuindo em Venúsia uma pequena gleba e exercendo o modesto ofício de cobrador de dívidas. Vendo no filhinho uma boa cabeça, o pai mudou-se com ele para Roma e dedicou-o ao estudo. Na casa paterna aprendeu a língua grega, e pela sua boa formação esmerou-se sobretudo o próprio pai.

Segundo o costume de então dos jovens romanos, também Horácio, completados os 17 anos, partiu para Atenas, a fim de alcançar maior saber e progredir especialmente na filosofia. Ali tinha por mestres os afamados filósofos e acadêmicos Teomnesto e Cratipo. Mas, antes de concluir esses estudos, no mês de setembro do ano 44, chegou a Atenas Marco Júnio Bruto, que arrebatou os jovens romanos que ali estudavam para a liberdade da pátria e a guerra contra os tiranos. Assim também Horácio seguiu com Bruto, e este nomeou-o tribuno militar. No outono do ano 42, em consequência da infeliz batalha de Filipos, Horácio deu-se à fuga e ao desespero pelo fracasso da revolta, como muitos outros zelosos republicanos. Pouco depois acolheu-se à amnistia e, regressando a Roma, conseguiu o pequeno ofício de escrivão da questura.

Nessa época Horácio publicou os seus primeiros poemas — sátiras e epodos — e tornou-se célebre por toda Roma. Os poetas Virgílio e Vário recomendaram-no ao seu poderoso amigo Mecenas — de cujo nome ainda hoje se batiza todo aquele que é amigo do livro ou de outra arte, todo aquele que é amigo dos escritores e dos artistas. Em pouco tempo o jovem Horácio tornou-se querido a Mecenas, e passou a ser recebido e estimado na sua esplêndida casa; ornado com a distinta companhia do glorioso Mecenas, de Virgílio e de Vário, alcançou a alegria de um viver despreocupado e instrutivo, quando Mecenas o convidou a viajar com ele rumo a Brundísio; compreendeu a santidade da sua vocação e o dever de progredir, quando o glorioso Mecenas lhe ofereceu a encantadora propriedadezinha sabina, para ali veranear e poetar.

E como o glorioso Mecenas lhe embelezou aquele retiro de verão, guarnecendo-o de mobiliário e livros, ornando-o de quadros e bustos de mármore, para lhe elevar a alma poética e o incitar à construção de um monumento mais duradouro que o bronze!

Vem-me involuntariamente à mente, aqui, a magnanimidade do falecido bispo Šrot, que ao falecido poeta Štos, feito pároco de Pokupsko, ornou com belíssimo mobiliário a casa paroquial, para que não lhe fosse incômodo viver ali em solidão.[2]

Mas a Mecenas não parecia bastante o que ele próprio fizera pelo seu protegido. Soube aproveitar a ocasião e, com sábio raciocínio, inclinar o imperador Augusto a fazer-se protetor e amigo de Horácio. Por muito tempo o jovem republicano se arredou da graça imperial; mas, vendo quanto o imperador Augusto trabalhava em prol do bem comum e quanto fomentava todo saber e toda arte, foi suavizando, dia após dia, a grande aversão, e por fim tornou-se grande amigo dele.

No próprio leito de morte, rogava Mecenas ao imperador Augusto: «Lembra-te de Horácio Flaco como se de mim te lembrasses.»

E de facto compreendeu o imperador Augusto quão grande homem era Horácio; pois respondia-lhe toda Roma e todos os Estados romanos quando ele tangia as cordas douradas do seu bárbito.

Esse é, caras leitoras croatas, aquele glorioso Horácio cuja célebre máxima — «Dulce et decorum est pro patria mori», isto é, «É doce e glorioso morrer pela pátria» — todos os povos, todos os patriotas do mundo inteiro acolheram e fizeram sua.

Esse é, caras leitoras, aquele Horácio que proclamou ao século e ao mundo: que o homem justo, o homem fiel ao seu propósito, não o atemoriza nem a sublevação dos cidadãos, nem o cenho carregado de um tirano de vontade obstinada, nem o Austro, esse furioso senhor do tempestuoso mar cinzento, nem a poderosa destra do fulminante Júpiter. E ainda que sobre ele desabasse o céu, impávido receberia os golpes das ruínas celestes.

Esse é aquele Horácio que aos romanos do seu século bradou que os seus pais haviam sido piores que os avós, que eles eram mais imprestáveis que os pais, e que deixariam após si uma descendência ainda mais miserável.

Esse é aquele Horácio que aos romanos louvou na cara as virtudes dos Getas e censurou a devassidão romana, a cobiça, o acúmulo desonesto de bens (improbae crescunt divitiae), a avareza, a injustiça, a cobardia; que exigia veementemente que a geração mais nova se entregasse ao estudo sério; que acudiu aos célebres juristas e legisladores romanos dizendo: Leges sine moribus vanae — isto é, que vã é a lei onde não há honestidade.

Esse é aquele Horácio que cantou que de heróis nascem filhos de heróis, que de ovo de gavião jamais se chocou uma pomba; e que toda virtude no peito humano se fortalece e se robustece pelo estudo e pelo cultivo da justiça.

O célebre Herder diz que Horácio é o único afortunado a quem homens de toda espécie — não se importando, de resto, com nenhum outro poeta —, homens do grande mundo, homens sábios e práticos, amam desmedidamente até à velhice. Os de cabeça grisalha, que não leram nenhum outro romano, têm a boca cheia das sentenças de Horácio. Os poemas de Horácio estão traduzidos em todas as línguas e, há quase dois mil anos, ecoam dos peitos dos próceres de todos os povos.

Não vos admireis, pois, caras leitoras, de que esse Horácio fosse do agrado do imperador romano Augusto; pois foi-lhe grande auxiliar na extirpação dos vícios romanos, foi-lhe desbravador do progresso e da sua glória!

Não vos admireis, caras leitoras, de que esse Horácio, decorridos mil e novecentos anos, tenha caído no agrado também do nosso Blagojević.

Horácio sussurrou ao ouvido do jovem Blagojević: «Dignum laude virum musa vetat mori» — isto é, que ao homem digno de glória a musa não deixa morrer.

Horácio incutiu-lhe no coração a honestidade e todas as demais virtudes; Horácio era-lhe o mais querido conselheiro e o mais querido consolador.

Blagojević sabia todo o Horácio de cor, palavra por palavra; ele próprio disse mais tarde ao meu amigo que se comprometeria a escrever de memória, palavra por palavra, todos os poemas de Horácio, por ordem, se disso houvesse necessidade!

O imperador Augusto muito se empenhou em merecer a amizade de Horácio; foi ele, provavelmente, que lhe comprou também a outra propriedade, a Tiburtinum; foi ele que, após a morte de Mecenas, o teve como hóspede e companheiro quotidiano, no lugar do falecido. Por isso, ao morrer, Horácio deixou todos os seus bens a Augusto, e deixou ao mundo inteiro — e também a Blagojević — os seus belos poemas alados.

Foi por isso que Blagojević adquiriu o busto de Horácio e o guardava no santuário da sua casa.

III

Insinuámos que todo o regimento de Slunj logo sentiu o homem de tomo, assim que Blagojević empunhou as rédeas da administração.

Um homem que era capaz de memorizar e compreender todo o Horácio, como não haveria de ser capaz de apreender e ter de cor as simples leis de Pidol?[3]

Jurista consumado, a quem nunca faltou a madureza e a agudeza de raciocínio de Horácio, como não haveria de orientar-se na Theresiana,[4] na fiscalização do tribunal e no modo de exercer o jus gladii [direito de espada]?

De início procurou examinar e averiguar nos mínimos pormenores quanto era o trabalho de cada relator. Onde achou que o peso do serviço estava injustamente repartido, ali logo, de bela maneira, tirou a um e atribuiu a outro tanto serviço quanto era justo.

Ao primeiro juiz coube grande lida por causa dos órfãos e da administração dos bens dos órfãos. Teve de organizar um registo de todos os órfãos e dos seus tutores, e anotar onde se encontrava cada criança órfã, se já em idade escolar, quem lhe detinha as terras e como se poderia auxiliar a comunidade familiar (zadruga) dos órfãos.

A cada relator ordenou, em suma, que lhe anotasse todas as questões mais importantes já iniciadas e ainda não resolvidas, e as dificuldades das comunidades familiares e dos municípios da Krajina. Onde ainda era preciso algum relatório da companhia, mandou logo escrever que, dentro de 8 ou 14 dias, o relatório devia, de toda maneira, chegar.

Aconteceu duas ou três vezes que tais relatórios não chegaram no prazo; mas eis que ordenava ao capitão da companhia que, no dia seguinte, levasse ele próprio o relatório diretamente às mãos do próprio coronel.

Blagojević sabia receber tal convocado com estas palavras, mais ou menos: «Admirei-me, senhor capitão, de que não viésseis vós mesmo tranquilizar-me acerca da desobediência na vossa companhia; pois de certo vós não sois nem podeis ser desobediente.»

E nem uma palavra mais. Blagojević inclinava-se, inclinava-se também o capitão — e foge, irmão, para que algum colega não te veja e não te pergunte: «Caiu sobre ti? Quis esmagar-te? Disseste-lhe que também tu carregas o ouro do imperador?» —

Por causa da garganta ferida, Blagojević falava, na verdade, baixo, mas bastante distintamente. Jamais se lhe notou na voz qualquer cólera; jamais proferiu palavrão ou outra palavra grosseira. Nos olhos e no rosto, nunca um relâmpago, nunca um rubor mais vivo; e na alta fronte era como se estivesse escrito o preceito de Horácio: «Aequam memento rebus in arduis servare mentem» — o que quer dizer: Cuida de manteres o ânimo equânime em toda adversidade!

E escolhia as palavras do modo mais cortês, e os argumentos que aduzia, do modo mais certeiro; não havia quem lhe pudesse objetar, não nascera de mãe quem o sobrepujasse em astúcia.

Desapareceu a teimosia, desapareceram a hesitação e o desmazelo; o que Blagojević uma vez ordenava, isso se cumpria dentro de prazo certo, ainda que se rompessem os arreios e os varais das carroças de serviço.

Primeiro empreendeu e, com influência pessoal, fez com que se levassem a termo as velhas questões não resolvidas. Onde era preciso, achava-se ele próprio no local, e procurava por toda parte que não somente cada galinha cacarejasse sobre o seu ovo — ainda que goro —, mas que afinal também se chocasse o pinto: isto é, que se pusesse fim à demanda e ao litígio.

Entre os jovens oficiais, agradava-lhe certo tenente — digamos que se chamava Ranković. Logo de início disse-lhe Blagojević, com benevolência: «O senhor, senhor tenente, deve estudar muito mais que os seus colegas; pois na sua cabeça pode caber mais do que na de qualquer outro. E parece-me que o senhor tem coração e brio bastantes; assim a riqueza da cabeça valerá ao senhor — e ao povo — muito mais do que num homem sem coração. Por isso não perca tempo, não se deixe desviar do livro por nada: nem pela alegre camaradagem, nem pelo melancólico namorico. Eu, de vergonha, teria de afundar na terra negra, se de mim se pudesse dizer que o barão Blagojević, ao aconselhar o tenente Ranković, atirava ervilha contra a parede [pregava no deserto].»

Ranković corou, lampejou-lhe a vontade, e desde então foi como se se houvesse acorrentado ao livro.

E não podemos ocultar que, com tal procedimento, Blagojević desagradou muito às belas de Karlovac; pois Ranković era vigoroso, belo homem, de talhe esbelto, cabelos louros, olhos garços de perigosa graça, o mais arrojado cavaleiro, o mais hábil dançarino e o mais divertido conversador.

Por qualquer rua que cavalgasse Ranković, acompanhava-o o ranger das janelas que se abriam e o assomar de belas cabecinhas adornadas com o frufru dos caracóis e com o encantador sorriso de lindos rostos.

Era de facto uma pena que aquela disputa das beldades de Karlovac por Ranković tivesse de cessar. Cada uma pensou que ele a desprezara por outra, e sabe Deus por qual indigna ele se deixara render.

Ao nosso amigo, antigo estagiário junto ao estado-maior, disse Blagojević, após as primeiras seis semanas: «Es integer vitae scelerisque purus!» — como se lhe dissesse: «És homem honesto, sem reparo!»

Desde então permaneceu esse integer vitae scelerisque purus na alma do nosso amigo como regra de vida; e ele se curvava ao espírito e ao carácter romano antigo do novo comandante, à sua justiça e à sua verdade jamais encoberta, à sua cortesia e amenidade, e sobretudo à sua erudição.

Se o nosso amigo dispunha de algum lazer, o mais urgente para ele era abrir Horácio e estudar com atenção algum poema, para melhor poder compreender e esclarecer — e acompanhar com entusiasmo — as sentenças do sábio chefe, quando este estava disposto a discorrer na língua de Horácio.

E isso acontecia com frequência, sobretudo à mesa de Blagojević, à qual havia todos os dias ao menos cinco ou seis convidados; e o nosso amigo ufanava-se do nome de hóspede assíduo de Blagojević, e só excepcionalmente, de quando em quando, ousava mandar dizer ao criado de quarto que apresentasse as suas escusas pela ausência.

IV

Quem alguma vez teve ocasião de estudar a instrução do falecido Conselho Áulico de Guerra sobre os deveres dos coronéis de fronteira ao inspecionarem os seus regimentos, esse há de admirar-se bastante do zelo e do honesto propósito de homens que não eram naturais da Krajina, que não conheciam plenamente as nossas misérias e dificuldades, mas a quem, ainda assim, não se pode censurar de terem hostilizado de propósito o povo da fronteira.

Blagojević, segundo essa instrução, na sua primeira inspeção ao regimento, examinou cada aldeia, cada edifício estatal e municipal, e muitas casas da Krajina. Visitou cada escola e mandou interrogar as crianças; com o mapa na mão, observava bem por onde corriam estradas e caminhos, como eram as pontes em cada lugar, de onde se transportava pedra e cascalho, onde era preciso reparo urgente, onde abrir nova vala e onde havia passagem mais conveniente. Falava com os munícipes e com os anciãos sobre a necessidade de estradas planas e calçadas, sobre o cultivo mais avançado da terra, o melhor trato do gado, sobre a urgentíssima necessidade de grande economia, sobre a extirpação do roubo e de outros vícios. Ameaçava, admoestava, aconselhava, intimidava com a lei, conjurava a multidão a que não o forçasse a um rigor implacável.

Em cada aldeia mandou conduzir à sua presença os órfãos e os seus tutores; perguntava por tudo e por todos, e onde era preciso pequena ajuda, ordenava no ato o que se devia fazer; e onde era preciso esforço maior, ali exigia minucioso relatório por escrito e anotava de cada vez o que melhor convinha providenciar.

Entre esses órfãos, foi-lhe conduzida, em certa aldeia da companhia de Krstinja, uma órfã de oficial, vestida de negro, cuja mãe — viúva — falecera havia pouco. Mãe e filha tinham apenas uma casinha de madeira, um pequeno horto e uma vaquinha, e viviam da pensão de viuvez da mãe. Após a morte da mãe, a moça vivia já havia dois meses da esmola alheia, e não havia esperança de que a jovem, já adulta, recebesse auxílio do Estado — e, ainda que o recebesse, seria escasso. Por isso pensava o capitão que o melhor seria providenciar para que Mirka — pois esse era o seu nome — pudesse obter emprego em alguma casa senhorial, até que se encontrasse algum digno suboficial com quem casasse, se houvesse a graça do coronel.

— E que graça é essa? — perguntou Blagojević ao capitão.

— A graça seria apenas a esperança, para tal suboficial, de cingir a espada [ser promovido a oficial] tanto mais cedo — respondeu o obediente capitão, juntando os calcanhares e levando a destra ao quépi.

— E existe tal suboficial? — continuou perguntando o coronel, fazendo descer a graciosa destra do capitão do quépi à coxa.

— Já estava ajustado que Mirka seria tomada [em casamento] pelo antigo sargento Ranković, na chancelaria adjunta; mas, por desventura, a proposta para o posto de oficial já havia sido remetida ao Conselho Áulico de Guerra, e por isso o senhor tenente-coronel não ousou autorizar o casamento, esperando a cada dia a vossa chegada.

Entretanto, Ranković tornou-se oficial antes da vossa chegada; Mirka ficou solteira, e a mãe, de desgosto, adoeceu e faleceu há dois meses. — Enquanto o capitão assim narrava, as lágrimas inundaram Mirka, e a órfã escondeu o rosto no lenço branco.

Blagojević aproximou-se dela e, pondo-lhe a destra no ombro, disse com voz baixa e pesarosa: — Lastimo-vos muito! Não choreis; antes dizei-me: agradar-vos-ia ficar em casa de alguma senhora do regimento, até que se vos depare outra ocasião?

— Não posso ficar aqui; mandai-me para longe, para o mundo estrangeiro! — respondeu Mirka, soluçando.

— Mas há de aparecer outra bela ocasião, e o senhor coronel é misericordioso! — apressou-se o capitão a consolar a moça.

— Não preciso de outra ocasião — disse Mirka com veemência —, para a minha ventura já dobraram os sinos; achai-me lugar no mundo estrangeiro, se temeis a Deus, e eu vos abençoarei enquanto viver! —

— Acaso não vos importais de casar com outro? — perguntou Blagojević, admirado.

— Nunca, jamais! — respondeu a moça, e de novo escondeu o rosto no lenço.

— Bem! — disse o coronel. — Preparai-vos para uma longa viagem; dentro de algumas semanas sabereis para onde. E agora, adeus! —

Mirka tomou-lhe a mão e não a deixou soltar-se enquanto não a levou aos lábios e não a molhou com lágrimas de gratidão infeliz.

Blagojević entregou ao capitão algumas moedas de dez [desetača], para que comprasse à moça roupa branca e vestes, e em seguida montou a cavalo e partiu rumo a outra aldeia.

Na companhia de Vališselo, achou Blagojević, sobretudo em Batnoga, campos muito bem amanhados e prados, vinhas e pomares bem cuidados; e ouvindo dizer que essa laboriosidade vinha de tempos imemoriais, desde quando ainda existia o mosteiro franciscano em Cetin, aproveitou a ocasião para admoestar também os outros aldeões, a que seguissem o exemplo dos de Batnoga. Proclamou ao povo que não avançasse mata adentro nem se apropriasse de novas roças; mas que, se alguém tem um pouco de terra, melhor a cultive, e tanto mais ela lhe renderá. E que guarde as florestas como à menina dos olhos.

Assim Blagojević aproveitava por toda parte cada nova ocasião para aconselhar e orientar o povo ao melhor, afastá-lo dos defeitos e dos maus costumes, e procurar ajudá-lo onde quer que fosse possível ajudar.

Em Vališselo, a conversa recaiu por acaso sobre a desgraça de Mirka, e soube [Blagojević] que a órfã gozava da melhor reputação — salvo que, ultimamente, de quando em quando, se deixava ver com Ranković. Mas tão logo Ranković se fez oficial, a falecida [mãe] logo lhe proibiu visitar a filha, visto que um oficial não pode casar sem caução (jamčevina).

Até certa hora da noite, escreveu Blagojević uma longa carta, e expediu-a no dia seguinte para Karlovac.

Não podemos revelar nem a quem nem o que escreveu. Baste às nossas caras leitoras sussurrar que ele se deitou a dormir satisfeito consigo mesmo, e que, alegre, madrugou no dia seguinte para trabalhar e prosseguir caminho.

Seria conveniente que os nossos leitores acompanhassem o laborioso coronel por todas as aldeias do seu regimento; mas vejamo-lo apenas mais uma vez, ao chegar a Slunj.

Junto a Slunj — como talvez saiba a maior parte dos nossos leitores — o Slovinčica (ou Sluinčica) desemboca no Korana. No meio de Slunj, num leito estreito, serpenteando conforme lhe ordenam as altas rochas, espreme-se o robusto Slovinčica por baixo da ponte de Slunj; e dali o seu leito começa a baixar e a alargar-se, e por ele a límpida corrente se dispersa em mil filetes que, com alegre salto e incessante estrondo, se precipitam no Korana. Esse lugar chama-se raztoke [as torrentes ramificadas], e ao longo dessas torrentes os habitantes de Slunj construíram pequenos moinhos, pois a água tem belo salto e cada filete é forte o bastante para mover roda ou rodízio. Entre os filetes do Slovinčica veem-se rochedos algo elevados, aqui e ali um arbusto e em torno dele a relva viçosa; sobre os filetes mais estreitos, pranchas dispostas, e a vereda que as une; pelas torrentes veem-se gansos a nadar e a mergulhar na rasa corredeira; belas raparigas do Slovin, com as saias arregaçadas, lavam roupa branca; as crianças saltam, as moças cantam junto aos moinhos; sobre a água está a aldeia — vida viva —, incessante o girar dos rodízios, incessante o matraquear e o bater dos pilões (stupa); e os filetes, caindo no caudaloso Korana, desfazem-se em gotinhas miúdas, de modo que parece que a própria neve branca se derrama nas profundezas.

Imaginai ainda, caras leitoras, que todos os moinhos estão enfeitados de bandeiras, que do alto rochedo troam os morteiros, que sobre a ponte, acima das torrentes, está reunida imensa multidão, que diante da carruagem de Blagojević cavalga uma dezena de serežani[5] de Zagreb, cuja maior alegria é disparar a pistola; imaginai ainda que também os sinos repicam, que toda uma companhia dos mais belos rapazes, com a mais nova farda e os quépis enfeitados, presta honra ao seu coronel, e que dois tambores rufam a marcha de general — e assim sabereis, mais ou menos, como Blagojević foi recebido em Slunj e quão grata lhe foi essa recepção.

Deixemo-lo em Slunj, e tomemos o atalho até Karlovac, onde tranquilamente o esperaremos, até que regresse.

(Continua.)

[1]kod Hanove — a batalha de Hanau (30–31 de outubro de 1813), em que tropas austro-bávaras tentaram cortar a retirada do exército napoleónico após Leipzig.

[2]Passagem de leitura paleográfica algo incerta no fac-símile, na qual o narrador interpõe uma comparação com a generosidade do bispo «Šrot» para com o pároco-poeta «Štos» (provável alusão a Pavao Štoos); manteve-se o sentido geral.

[3]Pidolovih zakona — expressão de leitura duvidosa; verossimilmente referência irónica a algum manual ou compêndio de regras administrativas então em uso na Krajina.

[4]Terezijana — provável referência à Constitutio Criminalis Theresiana (1768), o código penal de Maria Teresa, pertinente ao exercício do jus gladii; não se exclui alusão ao Theresianum vienense.

[5]šeređani / serežani (al. Serezaner) — corpo de polícia militar e tropa irregular da Fronteira Militar croata, reconhecível pelas capas vermelhas.

Nota editorial

«Krajiški Horacijevac» é uma pripovijest (narrativa em prosa) de Ivan Trnski, uma das figuras centrais do segundo iliricismo croata: poeta, tradutor de Schiller, Púchkin (o Oneguin) e Shakespeare, teórico da métrica croata, oficial administrativo da Vojna Krajina (Fronteira Militar) e, em 1901, primeiro presidente da Matica hrvatska. Foi também ele quem batizou o periódico Vienac. A sigla «I. T.», com que assina o conto, é firma reconhecida da imprensa literária croata desde os tempos de Gaj.

O texto aqui traduzido corresponde à primeira entrega (caps. I–IV), que termina com a indicação «Dalje sliedi» — «Continua».

A peça retrata Mirko, barão Blagojević, coronel do regimento de Slunj, oficial culto e admirador de Horácio, cuja administração rigorosa e justa da Fronteira Militar é narrada por um antigo subordinado — voz em que se reconhece o próprio Trnski. As citações horacianas estão preservadas no latim original; a tradução portuguesa que as acompanha reproduz, em geral, a glosa croata do próprio Trnski.

Ivan Trnski (1819–1910), sob a sigla «I. T.» Publicado originalmente em: Vienac zabavi i pouci, godina V., br. 1 (Zagreb, 4 de janeiro de 1873), pp. 1–6 — sob a direção de Franjo Marković, edição da Dionička tiskara. Fac-símile digital: Bayerische Staatsbibliothek / Münchener DigitalisierungsZentrum.

Foto de George Kourounis na Unsplash

 

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